Clarice Lispector em múltiplas telas

Rodrigo Fonseca 04 Março 2024 | 5min de leitura

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"O Livro dos Prazeres" é um intensivão de roteiro Foto: Estadão

Rodrigo Fonseca É o último dia pra se ver "Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo" em tela grande, no Rio: o primoroso .doc de Taciana Oliveira tem sessão às 16h30 e 20h30, no Estação NET Botafogo. Lá, esta noite, vai acontecer uma (necessária) homenagem ao diretor Fábio Barreto (1957-2019), com a projeção de seu derradeiro longa - "Lula, o Filho do Brasil", de 2009 - seguido de debate comandado pelo crítico Carlos Alberto Mattos. Mas até o evento em tributo póstumo ao realizador de "O Quatrilho" (indicado ao Oscar em 1996) começar, a casa é de Lispector. Textos literárias, imagens poéticas e trechos de uma entrevista de 1976 conduzem a forma delicada com que Taciana esquadrinha o existencialismo de Clarice, nascida em 1920 e morta em 1977. Mas há espasmos lispectorianos por muitas praças. Este ano, Luiz Fernando Carvalho leva às telas "A Paixão Segundo GH", reinvenção do melodrama com a atriz Maria Fernanda Cândido no papel principal. E, nas telas argentinas, no cinema de rua Gaumont, os portenhos estão se deliciando com "O Livro dos Prazeres", de Marcela Lordy. É uma das salas de exibição mais nobres de Buenos Aires.

"Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo" Foto: Estadão

Laureado com uma menção honrosa e o prêmio de Melhor atriz no 22? BAFICI, festival de Buenos Aires, "O Livro dos Prazeres" é o exercício mais semiótico de Lordy (de "Aluga-se"), que promove uma sofisticada operação de "deslizamento" em seu corpo a corpo com a prosa homônima de Clarice. "Deslizar" é um conceito que vem de historiadores da arte (Aby Warburg, em especial) e historiadores (David Bordwell) para designar o que se processa e o que muda durante a passagem de um media a outro numa versão de textos para o audiovisual. O que Marcela nos oferece, nesse procedimento de "deslizar" de prosa pra tela, é um curso de roteiro de 1h40, na batida de um intensivo de escrita. Chega a ser uma heresia aplicar o "redutor" conceito de "adaptação" para definir o quão sofisticado é o diálogo estabelecido entre o script de Josefina Trotta e da própria Lordy e o livro "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", lançado por Clarice em 1969. Em ambos, o romance e o filme, conhecemos Loreley - professora chamada entre seus pares só de Lóri - pelo vácuo em seu peito, que a leva a se desgarrar de qualquer possível relação amorosa duradoura. Nós emotivos assustam a personagem esculpida a delicadezas por Simone Spoladore. Na dinâmica intimista de Clarice, caímos num buraco existencialista a partir de uma vastidão de pensamentos, numa estrutura afetiva vista de dentro de sua cabeça, mas ali bem perto de seu coração selvagem. Já o longa prefere morder a maçã no escuro e trabalhar seu desejo numa tradução exteriorizada, preferindo o estar ao ser. É mais vida e menos ontologia, assumindo o reator nuclear Spoladore como uma espécie de Jeanne Dielman, figura central da filmografia da diretora belga Chantal Akerman (1950-2015), com quem o filme de Lordy mais frontalmente parece conversar. Chantal vem sendo redescoberta e celebrada depois de ter encabeçado a lista dos Melhores Filmes de Todos os Tempos da revista "Sight and Sound". O que Lordy nos deu foi um dos melhores filmes brasileiros de 2022.

Foto: Estadão

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Num roteiro akermaniano, com digressões sazonais, Josefina e Marcela transpõem a Lóri das páginas para as telas não de forma a adaptar as angústias do livro, tal e qual, como se fosse uma... "adaptação". O livro é um engrama (um traço residual) a partir do qual o longa (na belíssima fotografia de Mauro Pinheiro Jr.) cria uma Lóri particular, uma Lóri pra chamar de sua. E é uma Lóri como a heroína escrita por Lispector em "A Bela e a Fera": ao dimensionar que a ferida do viver é grande demais (na incapacidade de lidar com a perda da mãe, na pulsão de debelar o machismo, na dificuldade de ritualizar a entrega afetiva), ela olha para dentro de seu abismo e se deixa olhar por ele. A atuação de Simone, em estado de graça, permite que a gente olhe junto pra esse fosso tão grande. Fosso que se alarga no conflito sentimental que ela trava com o filósofo Ulisses (o ator argentino Javier Drolas, astro de "Medianeras"). Merece especial aplauso o trabalho de Felipe Rocha ao criar a figura de Davi, o irmão de Lóri que transborda sexismo. A partir dele, Marcela desconstrói modelos arcaicos sem medo de ser ácida. Ele, com maturidade, desnuda vícios de modelos históricos nocivos, construindo uma atuação visceral, capaz de galvanizar a interpretação de Simone. Agora, por aqui, é importante curtir "Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo" no cinema e esperar o avassalador ensaio de Luiz Fernando sobre a passionalidade de GH. Maria Fernanda Cândido chega pra devastar.

p.s.: O premiado musical "Furdunço do Fiofó do Judas - Uma Opereta Popular Apimentada por Marinês" fará uma única apresentação, dia 18 de janeiro, no Teatro Claro Rio, em Copacabana. Com dramaturgia da Cia Bagagem Ilimitada e direção de Jefferson Almeida, o musical foi indicado ao Prêmio de Humor - idealizado por Fábio Porchat - nas categorias de Melhor Peça, Melhor Texto e na categoria Especial pela introdução do repertório musical da cantora Marinês à dramaturgia, vencendo como melhor dramaturgia em 2020. A trama se passa em um prostíbulo no interior do nordeste e é entremeada por canções imortalizadas na voz da pernambucana Marinês, a Rainha do Xaxado. Falecida em 2007, a cantora e compositora foi a primeira mulher a liderar uma banda de forró (Marinês e sua gente) e estourou em todo o país com a música "Peba na pimenta", recheada de duplo sentido.