Por que a Bolsa brasileira caiu no dia seguinte ao corte dos juros? A resposta está em outro país

Letycia Cardoso 04 Março 2024 | 5min de leitura

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No dia seguinte à decisão do Banco Central de cortar mais 0,5 ponto percentual da taxa básica de juros, levando Selic a 12,75% ao ano, a Bolsa brasileira terminou o dia com forte queda. O Ibovespa, principal índice da B3, caiu mais de 2% e terminou o pregão em 116.145 pontos.

Ao mesmo tempo, o dólar se valorizou e fechou em R$ 4,93, uma alta de 1,10%. Mas se tudo o que o mercado mais quer é a queda dos juros, por que essa reação negativa?

Quem costuma acompanhar o mercado de capitais sabe que, em geral, quando a renda fixa (que tem a Selic como referência) se torna menos atrativa, pagando rendimentos menores, a Bolsa tende a se valorizar. Os investidores ficam mais dispostos ao risco para ganhar mais, e as empresas têm melhores condições de crédito para investir, melhorar seus balanços e distribuir mais dividendos.

Membros da diretoria do Banco Central, liderados pelo presidente da instituição, Roberto Campos Neto (no centro) — Foto: Raphael Ribeiro/BCB
Membros da diretoria do Banco Central, liderados pelo presidente da instituição, Roberto Campos Neto (no centro) — Foto: Raphael Ribeiro/BCB

A queda da Bolsa nesta quinta-feira então pode ser vista inicialmente como um paradoxo. No entanto, explicam analistas, vários são os fatores que influenciam o desempenho das ações.

Embora tudo gire em torno de números e projeções, a performance da Bolsa não é lá uma ciência tão exata porque envolve também o sentimento dos investidores e as suas percepções quanto ao cenário macroeconômico — do Brasil e do mundo. E o principal motivo para tanto mau humor veio de fora, mais precisamente dos Estados Unidos.

Fed não descarta nova alta nas taxas

Na quarta-feira, o Banco Central brasileiro cortou juros e sinalizou que deverá manter essa mesma postura nas próximas reuniões. Tudo dentro do esperado pelos investidores, ainda que eles queiram ver esse ciclo de queda dos juros se acelerar. O problema é que, no mesmo dia, aconteceu algo bem diferentes na maior economia do mundo.

Enquanto o BC brasileiro cortava 0,5 ponto percentual da Selic, o seu correspondente americano, o Federal Reserve (Fed), anunciou a manutenção dos juros nos EUA no intervalo entre 5,25% e 5,5%, maior patamar em mais de duas décadas.

O presidente do Fed, Jerome Powell, em entrevista coletiva nesta quarta, 20 de setembro — Foto: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
O presidente do Fed, Jerome Powell, em entrevista coletiva nesta quarta, 20 de setembro — Foto: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

Mas o que azedou mesmo as expectativas foi o fato de o presidente do Fed, Jerome Powell, ter deixado bem claro que não vai medir esforços para fazer a inflação voltar à meta de 2% ao ano nos EUA, incluindo até a possibilidade de retomar o ciclo de alta de juros. Essa é uma decisão que afeta o fluxo de capitais para economias do mundo inteiro, principalmente emergentes como a do Brasil.

Conjuntura opõe BC e Fed

Dessa forma, a conjuntura que se desenha é de uma queda de juros no Brasil em um ambiente de aperto monetário nos EUA, país que é emissor do dólar (a principal moeda de troca entre os países) e que tem a renda fixa considerada a mais segura do mundo.

Os rendimentos dos títulos americanos para dez anos, inclusive, subiram nesta quinta para cerca de 4,5% ao ano — maior valor desde 2007. Tudo isso estimula os investidores a abandonarem aplicações em países emergentes, que embutem maior risco, e buscarem abrigo na remuneração dos títulos americanos.

A B3, Bolsa de Valores de São Paulo, uma das maiores do mundo — Foto: Edilson Dantas
A B3, Bolsa de Valores de São Paulo, uma das maiores do mundo — Foto: Edilson Dantas

Em resumo: reduz-se o fluxo de capital internacional interessado em investimentos no Brasil, inclusive na Bolsa. Com menos dólares a caminho do país, o real e ações brasileiras tendem a perder valor, logo concluem os agentes do mercado.

Diferencial de juros: indicador-chave

Para João Sá, co-head de Investimentos da Arton Advisors, se o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos ficar menor do que 5%, a Bolsa brasileira poderá ser ainda mais penalizada:

— O problema é que podemos ver juros mais baixos no Brasil, principalmente após a mudança do presidente do Banco Central, que ocorrerá em 2025, somado ao fato de que soft-landing (pouso suave da economia) não é mais o cenário base nos Estados Unidos.

Impacto do petróleo na inflação preocupa

O alto patamar do petróleo nas ultimas semanas também preocupa investidores em todo o mundo. Embora o barril de Brent tenha caído na última sessão, fechando a US$ 93,30, há perspectiva de que a commodity volte a acelerar.

Alan Martins, analista da Nova Futura Investimentos, projeta o barril de petróleo a US$ 105 até dezembro. O valor mais alto do óleo pode pressionar o preço dos combustíveis e, consequentemente, a inflação. Nos EUA, isso reforçaria o aperto monetário do Fed. No Brasil, poderia limitar o ciclo de queda dos juros.

Preço internacional do petróleo afeta o dos combustíveis no país — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo
Preço internacional do petróleo afeta o dos combustíveis no país — Foto: Lucas Tavares/Agência O Globo

A decisão russa de interromper o fornecimento de diesel para todos os países fora de um círculo de quatro ex-estados soviéticos pode prejudicar diretamente a Petrobras, que tem grande peso no Ibovespa. As ações ordinárias da Petrobras fecharam a R$ 36,87, registrando uma baixa de 1,44%, ao passo que as preferenciais caíram 1,55%, indo a R$ 33,76.

De acordo com a análise de Werner Roger, diretor de investimentos da Trígono Capital, a estatal provavelmente terá que comprar o combustível mais caro de outro fornecedor, tendo que repassar o preço aos consumidores. Isso alimentaria a inflação.

Caso opte por incorporar os custos extras, a Petrobras poderá ser penalizada na Bolsa, diante de uma decisão que certamente terá impacto negativo nos números da companhia.

— Hoje, dois terços do diesel importado vêm da Rússia. O corte certamente terá impactos em toda a cadeia logística, porque usamos caminhões para transportar insumos — diz.

Roger acrescenta que questões internas, como a preocupação com o déficit fiscal e a queda na arrecadação federal, também têm impacto negativo na renda variável.

Esse cenário de incertezas levou os juros futuros a subirem. A taxa DI pra janeiro de 2026 passou de 10,235% a 10,295%. Já a taxa com vencimento em janeiro de 2030 subiu de 11,180% para 11,250%.

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