PF encontra ligação de coronel Cid com Paulo Figueiredo Filho

Marcelo Godoy 04 Março 2024 | 8min de leitura

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A Operação Lucas 12:2, da Polícia Federal, revelou a primeira ligação entre os assessores militares do presidente Jair Bolsonaro e um dos artífices da campanha de difamação montada no fim de 2022 contra os generais do Alto Comando do Exército (ACE). A ação desencadeada após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva procurava desacreditar e deslegitimar os integrantes do ACE que se opunham à aventura golpista defendida por bolsonaristas acampados na frente dos quartéis, a tal “intervenção militar”.

O coronel Mauro Cid e o Rolex que a 'operação resgate' recuperou nos Estados Unidos Foto: Geraldo Magela/Agencia Senado e Acervo Estadão

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A ação contra os generais ganhou força no dia 28 de novembro de 2022, quando um dos netos do ex-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo, o comentarista Paulo Figueiredo Filho, afirmou em um programa de rádio: “Eu apurei que há (generais do Alto Comando do Exército) que têm se colocado de forma aberta contra uma ação mais contundente das Forças Armadas. Mas, hoje, por um dever cívico, vou dar nome aos bois, pois o povo brasileiro tem direito de saber quem é quem.”

Ex-sócio de Donald Trump em um projeto que previa a construção de um hotel na Barra da Tijuca, Figueiredo Filho era bastante ativo nas redes sociais em defesa de Jair Bolsonaro. Um mês mais tarde, ele teria suas contas em redes sociais bloqueadas e seu passaporte cancelado por ordem do ministro do STF e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes.

Figueiredo Filho fazia suas transmissões de Miami, na Flórida. Naquele dia 28, ele continuou: “Os três que estão agindo são o general Richard Nunes, o general Tomás Miguel Paiva, e o general Valério Stumpf.” A fala do jornalista desencadeou uma campanha nas redes sociais que passou a caluniar e a difamar os generais, qualificados como carreiristas, traidores e melancias.

O general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, atual comandante do Exército Brasileiro Foto: WILTON JUNIOR / ESTADAO

No dia seguinte – 29 de novembro –, Figueiredo Filho voltou à carga. Tomás, o atual comandante da Força, foi pintado como um progressista que estragou a formação dos militares quando comandou a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). Richard era um “esquerdista para os padrões do Exército” que fora “forte contra a bandidagem” – ele fora secretário da Segurança do Rio durante a intervenção federal, em 2018 –, mas que não estava tomando “posição contra um governo badidólatra”. Já Stumpf, hoje na reserva, era apontado como o braço do ministro Moraes, o “Xandão, no Alto Comando”.

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Campanha

A campanha de difamação dos generais foi o motor que buscava abalar a disciplina do Exército e emparedar os generais do Alto Comando a fim de que impedissem a posse do então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Os golpistas apostavam ainda na quebra da hierarquia, o que não ocorreu em nenhuma das organizações militares do País. No dia 30 de novembro, veio a primeira reação: o comandante da Força, general Marco Antonio Freire Gomes, mandou publicar uma nota de repúdio às declarações de Figueiredo.

“Em relação ao divulgado pelo comentarista Paulo Figueiredo Filho, nos dias 28 e 29 de novembro de 2022, o Comando do Exército repele as alegações que ferem a imagem da Instituição e de integrantes do seu Alto Comando.” Por ter se recusado a dar o golpe pretendido pelos extremistas, o general Freire Gomes também se tornou alvo das “operações psicológicas”. Elas incluíram a aposta de que coronéis passassem por cima dos generais. Surgia um manifesto de oficiais endereçado aos comandantes das Forças Armadas.

A campanha afetou indivíduos simpáticos ao ex-presidente. Três dias depois de Figueiredo Filho citar os generais, o coronel Jean Lawand Junior, que trabalhava no Estado-Maior do Exército, escreveu para o tenente-coronel Mauro César Barbosa Cid, então chefe da Ajudância de Ordens de Bolsonaro. As mensagens entre os dois foram encontradas pela PF no celular de Cid.

O coronel do exército Jean Lawand Junior ao depor na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Atos Golpistas Foto: WILTON JUNIOR/ESTADAO

— Cidão, pelo amor de Deus, cara. Ele (Bolsonaro) dê a ordem, que o povo está com ele, cara. Se os caras (generais) não cumprirem, o problema é deles. Acaba o Exército Brasileiro se esses cara não cumprirem a ordem do... do comandante supremo. Como é que eu vou aceitar uma ordem de um general, que não recebeu, que não aceitou a ordem do comandante? Pelo amor de Deus, Cidão. Pelo amor de Deus, faz alguma coisa, cara. Convence ele a fazer. Ele não pode recuar agora. Ele não tem nada a perder. Ele vai ser preso. O presidente vai ser preso. E pior, na Papuda, cara (...).

— Mas o Pr (Presidente) não pode dar uma ordem se ele não confia no ACE”, disse o tenente-coronel Cid, referindo-se ao Alto-Comando do Exército.

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— Então ferrou. Vai ter que ser pelo povo mesmo — concluiu Lawand

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As publicações de Figueiredo Filho tinham grande repercussão entre os militares. Entre outubro e novembro de 2022, três generais de divisão da ativa compartilharam em suas redes sociais críticas ao TSE feitas pelo comentarista. Um deles foi o general Edson Skora Rosty, o mesmo que fora citado por Lawand em outra conversa com Cid.

Segundo o relato de Lawand, o general, então subcomandante de operações terrestres, teria dito que se o Exército recebesse a ordem de Bolsonaro agiria prontamente. Rosty apagou as publicações de seu Twitter, mas a coluna mantém cópia. No dia 20 de outubro, o general compartilhou a crítica de Figueiredo ao que acusava ser uma censura contra bolsonaristas: “As coisas estão degringolando rápido”.

Publicação de Figueiredo Filho compartilhada pelo general edson Skora Rosty em sua conta no Twitter Foto: Reprodução / Estadão

No dia 8 de janeiro, civis e militares se envolveram na ação que tomou a sede dos três Poderes, em Brasília. Eles incentivaram publicamente coronéis com comando de tropa a passar por cima dos generais contrários ao golpe. Assim fez, por exemplo, o coronel José Placídio Matias dos Santos, que trabalhara no Gabinete de Swegurança Institucional (GSI). “Onde estão os briosos coronéis com tropa na mão?”, questionou Placídio.

Apreensão

Após a apreensão do celular de Cid e de outros suspeitos de envolvimento nas tramas do bolsonarismo, os federais começaram a reconstruir as relações entre os suspeitos de participar dos atos golpistas com outros ilícitos, como a organização criminosa que teria sido montada para vender joias desviadas do patrimônio da Presidência da República e para lavar os recursos obtidos com a alienação dos objetos preciosos. É o que se vê na página 67 da extensa decisão do ministro Moraes que deflagrou a Operação Lucas 12:2.

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Ali aparece a primeira prova da ligação entre Cid e Figueiredo Filho, um dos artífices da campanha contra os generais. É quando se descreve a operação para se recuperar o chamado “Kit Ouro Branco”. Entregue ao ex-presidente Bolsonaro pelos sauditas em uma viagem, em outubro de 2019, o kit – um relógio Rolex em ouro branco e diamentes, um anel, abotoaduras e um rosário islâmico (masbaha) – foi vendido pelo tenente-coronel Cid nos Estados Unidos.

Segundo os federais, em 9 de março de 2023, Cid conversou com o tenente Osmar Crivelatti. Antes de integrar a assessoria de Bolsonaro, Crivelatti ocupou outra função importante no Exército. Ele foi o primeiro Adjunto do Comando do Exército, cargo criado em 2015 pelo general Eduardo Villas Bôas, que nomeou Crivelatti para assessorá-lo. Ele permaneceu ao lado do general até janeiro de 2019, quando Edson Pujol assumiu o comando da Força. Crivelatti deixou o cargo em junho daquele ano para trabalhar na Presidência.

Kit de peças em ouro branco que teriam sido desviadas por grupo ligado a Bolsonaro Foto: Polícia

Cid enviou ao tenente um arquivo em formato pdf, extraído de uma consulta ao Google Maps. Nele estava destacado o endereço de uma joalheria: a Goldie’s, no complexo Seybold Jewelry Building, em Miami, onde o coronel havia deixado em 14 de junho de 2022 as abotoadoras, o anel e o rosário islâmico para serem expostos à venda. “Nesse contexto, Mauro Cid envia, ainda, o contato do nome Paulo Figueiredo Filho e o telefone +1 (786) 660-xxxx para Osmar Crivelatti”. A coluna procurou Figueiredo Filho, mas ele não respondeu. O número passado à Crivelatti tem o código de área de Miami, onde o comentarista mora.

Paulo Figueiredo Filho: comentarista foi um dos artífices da campanha contra os generais Foto: REPRODUÇÃO / YOUTUBE

Os federais querem agora saber qual o papel de Figueiredo Filho na “operação de resgate” do Kit Ouro Branco. E apostam nos arquivos do telefone de Crivelatti, alvo de buscas na sexta-feira passada, para descobrir mais informações sobre a rede de apoio mobilizada por Bolsonaro e seus assessores para recuperar o Rolex e as demais peças do kit a fim de devolvê-lo ao Tribunal de Contas da União (TCU) para que fosse reincorporado ao acervo da Presidência da República.

Nos arquivos guardados por Cid em seu telefone, os federais encontraram outro diálogo com Crivelatti: “Vamos falar com o Pr (Presidente).” Logo depois, o coronel encaminhou nova mensagem em que afirmou: “Falei com ele (Bolsonaro)”. Na gíria dos policiais, o esquema de Bolsonaro teve de “vomitar” as joias desviadas para evitar que o esquema fosse descoberto pelas autoridades.

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A constatação do golpismo, da venda de joias, a falsificação de certificados de vacina, do embaraço à votação no dia do 2.º turno e do uso da Caixa para pagar o consignado do auxílio Brasil na véspera da eleição apontam para a mesma direção: o ex-presidente Bolsonaro e seus assessores. Não é difícil aos investigadores responder à indagação sobre quem se beneficiava de todas essas tramas. Há muito tempo, Sêneca fez Medeia dizer: “Cui prodest scelus, is fecit”.